Amor

Amor

Poemas de Vinícius, música francesa, pequenos recados em papel cheiroso, até uma tentativa de poema mal escrito e mal rimado. Coisas do amor, diziam os amigos íntimos e a turma do pôquer. “Tá louco!”, diziam os mais chegados, família e empregados.

A mulher só queria saber quem era a outra, a que ia levá-lo para uma outra vida, mas nada mudara, até um detetive contratado constatou que não existia outra ou era tão escondida que não valia a pena se preocupar.

Ela, a mulher atual, resolveu segui-lo. Ele saía, ela ia atrás e nunca via nada, sempre a mesma rotina absurda e repetitiva, sem nenhuma imaginação. Mas por que esse ar de felicidade absoluta? E as cartas, os recados e as roupas diferentes e jovens? Nada fazia sentido, era sonho e pesadelo ao mesmo tempo.

Como ela era nossa amiga recorreu a nós. ─ O que fazer? - perguntava assustada. ─ Tenho certeza que é outra mulher, ele está até mais inteligente!

Por causa dessa última informação, que ele estava mais inteligente, resolvemos adotá-lo no grupo para descobrir o mistério. O poeta distribuiu livros de Sherlock Holmes para treinarmos, deu dois dias para lermos as aventuras do detetive mais famoso do mundo e aprendermos alguma coisa.

Nara Leão, com uma lógica assustadora, falou: ─ Se lendo livro a gente aprendesse a ser detetive não precisava academia de polícia, bastava que só chamassem quem sabe ler.

Convocamos o Helio Pelegrini, o maior psicanalista do Brasil, que ouviu com atenção a história da transformação do Zé Manuel e, depois de pensar algum tempo, perguntou: ─ Ele mudou de nome, ganhou apelido novo, alguma coisa assim, porque se continua Zé Manuel fica difícil de acreditar. Zé Manuel não muda, é Zé Manuel até o fim. Ela é que devia ter casado com um Felipe, um Marcos Vinicius, alguém com nome de imperador. Esses mudam fácil, mas Zé Manuel, humm...

Marina Morena, a nossa amiga filha da Rute Almeida Prado, que tinha esse nome em homenagem a Caymmi, continuava no nosso pé.

─ Se vocês que são parte das maiores inteligências de nosso país não descobrirem, quem vai descobrir o que aconteceu com meu Zé Manuel?

Convidamos o Zé para o encontro matinal da sexta-feira no bar da Montenegro. Ele relutou, tinha que deixar de trabalhar, mas ao conhecer a lista de presenças e ter certeza de que o poetinha e o maestro estariam lá, jogou tudo para o alto, colocou uma polo vermelha e uma calça branca e, com jeito e ar de turista americano, sentou-se na nossa mesa.

Dava para envergonhar ter aquele Zé branco, cabelo esticado e roupa assustadora na nossa mesa sagrada, mas pela Marina faríamos qualquer coisa. Começamos com caipirinha e o Zé aceitou com alegria. Para chegarmos mais rápido à verdade, dissemos a ele que sempre que alguém novo se juntava a nós tinha que beber duas caipirinhas enquanto o poetinha bebia uma. Se não cumprisse o ritual tinha que sair da mesa e nós nunca mais sequer olharíamos para ele.

A estratégia era embebedá-lo rápido e, quando ele estivesse com olhar vidrado, cambaleando, entraríamos direto no assunto, forçaríamos a resposta redentora e Marina iria saber a verdade.

Depois de trinta e sete minutos, ele já tinha bebido oito caipirinhas e continuava tranquilo, com ar de interesse, maravilhado com aquela vida irresponsável de Ipanema, e até já tinha arriscado duas palavras inteiras. Apelamos para a arma secreta, avisamos que depois de quarenta minutos o poetinha passava para o uísque e aí a proporção tinha de ser três para um, ou seja, para cada copo do poeta, três copos do aspirante à fama.

Zé Manuel concordou na hora e até anunciou solenemente que pagaria a primeira rodada e se apressou, para nosso espanto, a pedir um uísque para cada um de nós e três para ele.

O outro Manuel, o português, dono do bar, com a lógica de um cantor de fado, perguntou.

─ Queres os três de uma vez? Em três copos? Não achas mais fácil pedir um triplo ou gostas mesmo é dos copos?

Zé Manuel, com uma paciência e uma tranquilidade impossível para quem já tinha tomado oito caipirinhas, explicou ao Manuel que aquilo era um ritual de aceitação, assim cada copo que o dono do bar trouxesse para o poeta, tinha que trazer três para ele. O Manuel, incrédulo, replicou:

─ Vais morrer de coma alcoólica e esses aí não vão nem ao teu enterro.

Mais meia hora e nada, Zé Manuel parecia ficar mais sóbrio e dono da situação a cada três copos que bebia. Segundo as contas, já eram nove de uísque e oito caipirinhas. Foi aí que, com a sutileza de um elefante, Edu Lobo, recém-chegado à mesa e sabendo do objetivo daquele encontro ─ para quem não sabe o Edu era meio apaixonado pela Marina ─ estava ansioso para culpar o Zé, conseguir a separação dos dois e então iniciar a conquista da mulher amada.

Então, como dizíamos, sutilmente falou.

─ E aí, Zé, estás cheio de gatinhas, estás corneando tua mulher com uma loura ou uma morena?

Caiu um silêncio estarrecedor, todos olhamos para o Edu e esperamos a resposta. Zé Manuel, meio sem graça, com ar de quem vai ter que se expor além dos limites, respondeu.

─ É, caras, para vocês vai parecer esquisito, mas casei virgem e até hoje só tive a Marina, me desculpem, mas sou assim, devo ser um chato para vocês, e sem histórias nem romances fica pior ainda.

Caímos numa gargalhada conjunta e sonora e ríamos tanto que o Zé Manuel até ficou bêbado de repente, e sem entender nada começou a rir também. Afinal, com uma simples resposta resolvêramos metade do problema, a outra era entender a mudança do Zé. Marina nunca iria aceitar esta conclusão simplista, afinal até de perfume ele tinha mudado e precisava haver uma explicação.

Impossível conseguir qualquer coisa naquela hora, Zé estava completamente bêbado, a cabeça não ficava mais em nenhuma posição possível e, pelos nossos cálculos, no máximo em onze minutos ele estaria apagado sem regresso.

Zé tinha sido carregado pelo garçom, o Esteves, e colocado num táxi que o largou na portaria do prédio. Dali até a cobertura, onde moravam, foi carregado pelo porteiro Otacílio e pelo garagista Fagundes. Aberta a porta por uma Marina aflita, eles o levaram até a cama de casal que estava pronta, com novos lençóis de fio egípcio, e cheirava a lavanda.

Nervosa e educada, Marina perguntou assustada se ele estava vivo.

─ Está sim, respondeu Otacílio, mas está bêbado que nem um gambá.

Com esta frase se retiraram. Marina estarrecida olhava para aquele homem que virara um desconhecido, e agora ainda mais, porque em doze anos de casado nunca bebera nada, nem cerveja gelada. Como o Zé não ia responder nas próximas horas, ela foi para o telefone e não nos deixou em paz, queria saber tudo e nos culpava pela nossa indiferença perante o seu sofrimento.

Tínhamos combinado não dizer nada até resolver a metade do problema que faltava. De qualquer forma, não ia adiantar, ela não acreditaria e ainda perderíamos a nossa única Marina Morena. Assim justificamos aquele pileque bravo pelo amadorismo do Zé.

Nos desculpamos e prometemos que em mais uma semana teríamos tudo resolvido e saberíamos o porquê de tantas mudanças. Numa reunião de emergência, decidimos nos dividir em duas equipes. Uma iria a nossos encontros no bar da Montenegro, iríamos todos e deixaríamos o Zé à vontade, aos poucos poderíamos analisar seu comportamento e descobrir a verdade.

A outra adotaria uma estratégia de reuniões tête-à-tête: cada um de nós tentaria sair com ele sozinho para um drinque, um jantar e até um cinema se fosse preciso, buscaríamos penetrar naquele imenso segredo e descobrir o motivo da mudança.

E nada! Passou a semana e tivemos que implorar à Marina Morena um adiamento, explicamos que a ciência da investigação era muito mais difícil do que fazer poesia ou música, demos outras razões e conseguimos mais uma semana. Antes de nos dar esse prazo ela fez questão de dizer que depois que ele estava saindo com a nossa turma tinha piorado ainda mais, até livro de poesia estava lendo antes de dormir e isso, para Marina, era indicação certa de amor novo.

─ Só homem apaixonado lê poesia, homem detesta essas coisas.

─ E os poetas? ─ perguntamos.

─ Ah, se não for bicha, é garanhão, ou faz poesia para dar ou para impressionar as mulheres.

E assim, reduzidos a esta simples definição, ganhamos mais uma semana para trabalhar. A primeira reunião tête-à-tête, como não podia deixar de ser, foi com o Edu, afinal ele tinha interesse direto no assunto, queria resolver tudo rápido e libertar a Marina daquele Zé Manuel.

Combinaram um encontro no Garcia, uma bebida e talvez até uma comida se a conversa se esticasse muito. Edu foi direto ao assunto.

─ Está todo mundo estranhando essa tua transformação, Zé, todos querem saber por que, e a maioria aposta que arranjaste um amor novo, uma amante, enfim, alguma estás aprontando.

Zé, animado, perguntou:

─ Estou melhor assim?

─ Claro, respondeu Edu.

Era o momento de agradá-lo para arrancar a verdade.

─ Pois é, sabe, eu estava me sentindo muito chato, estava chato até para mim mesmo, me olhava no espelho e saía deprimido, comecei então a pensar em como ela podia gostar de mim daquele jeito, tinha que mudar.

─ Então existe uma ela, respondeu Edu, já antecipando a solução e se achando o melhor dos sherloques improvisados.

─ Claro, respondeu rindo o Zé Manuel.

─ Conta pra mim quem é essa deusa, vai?

─ É a maior das deusas, mas não posso te contar, você vai rir de mim.

Apesar de todas as insistências, vários uísques, até um almoço de lagosta, Zé permaneceu irredutível e não disse o nome tão procurado por todos nós.

Quando Edu nos reportou o encontro em detalhes fomos obrigados a reunir o grupo. Já existia a confissão, Zé estava mudado por causa de uma mulher. Existia uma confissão anterior em que ele dizia ter casado virgem, existia o trabalho do detetive que não encontrara nada, existia a Marina fuçando tudo do Zé: carteira, caderninho de endereços, telefone, enfim, passando o pente fino na vida dele e nada.

Depois de levantar todos os fatos, como acontecia nos livros do Sherlock Holmes, convocamos um doutor Watson, que não podia deixar de ser outro senão nosso psicanalista, o Helio.

─ Elementar, ele disse. Depois de tudo que me apresentaram tenho certeza de que o Zé está apaixonado, paixão brava, daquela que se carrega por uma vida inteira.

E dita esta frase se levantou solene porque dali a pouco estaria atendendo mais um cliente. Ficamos respondidos e estarrecidos. O mistério continuava. Resolvemos contar tudo que sabíamos à Marina, mostrar que tentamos e que até tínhamos o motivo, só não tínhamos o nome. De fato, todas as mudanças tinham sido por amor, mas quem era a musa do Zé?

Mistério profundo... Marina chorou sem parar, se fosse grega teria se descabelado e jogado areia no rosto, como era carioca e vaidosa, chorou até sem lágrimas para não desmanchar a maquilagem.

Pedimos mais duas semanas e ela concordou sem reagir. Do lado dela a busca também só mostrava sinais, mas nada de concreto. Tinha encontrado recortes de poesia do poeta na carteira, sublinhadas aquelas palavras célebres: ...posto que seja imortal enquanto dure... E tantas outras que indicavam o inevitável. Zé Manuel estava totalmente apaixonado.

Como não podia deixar de ser, comentamos o fato de que ele havia se casado virgem, Marina não só confirmou como deu mais uma ligeira choradinha, sem lágrimas, ao lembrar tanta paixão.

─ Ele é capaz dessas coisas, e agora tudo para a outra...

Mais uns soluços em seco e depois caminhamos todos juntos pela praia em direção ao bar. Edu falou baixinho, com voz grave e muito séria; ─ Por que você não faz o mesmo, arranja um namorado? Vamos ver a reação dele.

Para desânimo e tristeza do nosso Edu, Marina respondeu; ─ Não dá, quanto mais ele muda, mais eu gosto dele. Se fosse antes até era capaz, ele era muito chato, muito igual, mas agora...

E assim ficou selado o futuro daquele amor impossível, Marina se confessava perdida de amor pelo novo Zé Manuel. Em desespero resolvemos beber, chegamos mais cedo e ninguém arriscava palpite. Tínhamos falhado, Marina, com razão, começava a duvidar de nossa capacidade de tudo saber.

O maestro arriscou umas palavras:

─ E porque não nos abrirmos com ele e contarmos a história toda?

Piorar não vai. Na falta absoluta de outra ideia combinamos com o Zé Manuel um encontro na sexta-feira cedo, no bar da Montenegro, com direito de esticar até sábado.

Tudo acertado, convocamos o psiquiatra Helio que iria apenas escutar e determinar com seu conhecimento se ele estava dizendo a verdade ou não.

Organizamos os lugares de modo que o Zé ficasse entre o poetinha e eu, olhando de frente o maestro e, nas laterais, Helio, o psiquiatra ouvinte, e Edu, proibido de abrir a boca.

Amanheceu como só amanhece em Ipanema, sem chuva, sem vento, com cheiro de mar e areia fresca. Tudo certo para o grande dia. Zé chegou na hora, sorridente, com uma camisa florida, típico americano perdido pelo mundo, a calça branca e até um chapéu Panamá. Fui encarregado de conduzir o assunto. Assim decididas as caipirinhas, distribuídos os lugares, entrei direto no tema e com detalhes marcantes, como todas as lágrimas secas de Marina, não escondi nada.

Para nossa surpresa Zé caiu na gargalhada e saiu pulando da mesa. Como era muito cedo para ter futebol, o garçom Evaristo veio socorrê-lo pensando tratar-se de um ataque cardíaco fulminante, mas o Zé ria e pulava, tirou o maestro para dançar e girava pelas mesas como se tivesse ganhado na loteria.

Finalmente conseguimos acalmá-lo e reclamamos; ─ Tá doido, homem? Fala agora, confessa o nome dela.

Sorridente e cheio de razão, Zé falou:

─ Ela é a Marina, gente. Faz uns meses ela começou a sair de tarde, sempre que eu saía ela saía também, e aí pensei: tem homem nisso, ela está se apaixonando por outro.

─ Me olhei longamente no espelho e concluí que tinha de mudar.

Quem ia gostar de um cara chamado Zé Manuel que só tinha roupa cinza e preta? Quem ia gostar de um chato assim? Falei com meu barbeiro, cara experiente em mulheres, e ele me aconselhou a roupa branca com sapatos combinando, mudamos o corte do cabelo, lembram que até comecei a beber?

E não é que deu certo? Pouco a pouco a Marina se chegava mais, fazia amor a toda a hora e ainda perguntava se eu não estava cansado. Fiquei amigo de vocês, mas continuava desconfiado, ela saía muito e sempre queria saber por onde eu tinha andado. Confiei em mim e no barbeiro e disse pra mim mesmo:

─ Vou vencer esta batalha. Agora vocês vêm e contam que o outro era eu mesmo, aleluia!

E lá saiu Zé Manuel dançando por entre as mesas, numa alegria de guri novo. Enquanto ele dançava perguntamos ao psiquiatra Helio o que era aquilo.

─ Amor, verdadeiro amor.

 

Max Gonçalves



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